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Moeda

Em meio aos fétidos e obscuros recônditos do mercado, eis que nasce uma moeda. Cintilante que só ela, é primeiramente enviada a uma quitanda de vila.Seu Mariano, que dificilmente emitia Nota Fiscal, deu-a num troco errado para um cliente distraído.Este, por sua vez, comprou cigarros num boteco de esquina muito mal frequentado. No caixa do boteco, a moeda nova era a coisa mais limpa (e já não estava tão limpa assim).Dali seguia nos bolsos de um bêbado violento que costumava bater na mulher ao chegar de porre. Porém, no dia seguinte, o homem se recompunha e procurava agradar os filhos dando-lhes dinheiro. As crianças eram três: Um menino e duas meninas.Ao pegar a moeda, o menino voou para a venda de doces do outro lado da rua e comprou chicletes suficientes para ele e as irmãs.Dona Cida, da lojinha, era uma pessoa muito caridosa e amorosa. Ela deu a moeda de esmola a um pedinte que vivia estirado na calçada em frente à quitanda do seu Mariano.De posse da moeda, o pedinte entrou na quita…

O dia que o meu gerbil falou comigo

Há alguns dias adquiri um par de geris. Simplificando para quem não conhece, gerbil ou esquilo-da-mongólia como também é conhecido, é um tipo de hamster.
Mas não estou aqui para falar de gerbis em geral, quero contar sobre o dia em que o meu falou comigo.
Era uma noite fria de inverno e eu estava passando roupa. De repente ouvi um chiadinho, quase um chorinho (como de rato) vindo do terrário. Gerbis são meio selvagens e quase não interagem com o dono. Mas esse estava chiando pra mim.
Achei muito bonitinho e pensei que talvez o bicho estivesse com frio. Então coloquei feno no terrário e aproveitei de trocar a água e a ração. Talvez fosse fome.
Continuei passando minha roupa quando escutei novamente. Parecia um apitinho desses brinquedos de borracha para bebês. Lembrei que esses animais adoram semente de girassol (mas não pode dar muito senão eles se empanturram e morrem).
Peguei um pouquinho de semente e estendi a mão no terrário para o pequenino comer. Ele, como de costume, descascou a sem…

Cachorro

Cachorro não pode ser muito bem educado. Tem uma cena no filme “Bolt” que deixa isso muito claro. Pra quem não viu, uma atriz mirim contracena com um cãozinho chamado bolt em uma série de TV. Lá pelas tantas, o cachorro se perde e a produção do programa encontra outro cachorro para substituir. Só que a criança percebe que não é mais o mesmo cachorro na hora, porque um adestrador faz um sinal e o cachorro senta roboticamente.
Ocorre que o bolt original era um cachorro normal que, inclusive, acreditava na trama da série. A naturalidade do cachorro era o segredo do sucesso. Óbvio, nada mais legal do que ver um cachorro sendo cachorro. Isto é, agindo naturalmente, perseguindo o próprio rabo, mordendo alguma coisa, latindo, lambendo as partes... Não, lambendo as partes não, isso é nojento mesmo.
Esses cães super adestrados são bizarros. Outro dia vi um desses especialistas em educação canina falar num programa de TV: “Não cumprimente o cachorro ao chegar”, “Não se despeça quando sair”, “Trate…

Charlene

Eu devia ter uns 10 anos, meu pai acordava cedo pra fazer o café e comprar pão.
Um dia ele esqueceu o leite no fogo e saiu para comprar o pão. Você pode deduzir que o leite derramou apagando o fogo e fazendo aquela fumaceira. Quando eu acordei pensei que fosse um incêndio. Corri para a cozinha e desliguei o gás.
O mais engraçado e todo mundo ficou comentando foi que eu salvei a periquita. Calma, nós tínhamos uma periquita de estimação chamada Charlene (em homenagem à personagem da série “A família dinossauro”).
Subi na cadeira, tirei a gaiola do prego e levei lá pra fora aproveitando de deixar a porta aberta para a fumaça sair. “Um verdadeiro salvamento” comentavam à minha volta. “Isso é uma atitude heroica de verdade!” continuavam.
Eu a essa altura já estava me sentindo o Batman. O grande salvador de periquita. “Salvei minha periquita” dizia aos meus coleguinhas na escola. "O nome dela é Charlene" prosseguia.
Ninguém achava estranho até a adolescência. Na adolescência eu já não …

Uma comédia romântica

Às vezes a vida cria situações improváveis, em lugares improváveis e com pessoas improváveis e dá tudo certo. Prova disso é o nosso casamento.
Nos conhecemos em uma igreja. Eu não estava procurando ninguém, mas você com certeza me achou. Seus olhos desviaram-se da leitura bíblica e passaram a tentar ler a minha mente. Obviamente Deus não disputa espaço com os feromônios.
Depois de algumas cantadas resolvi aceitar sair com você para te dizer que seríamos apenas amigos. Realmente eu não te conhecia. Nem a esfirra de espinafre me deu força suficiente para me opor à pessoa mais insistente da Terra.
Finalmente começamos a namorar... Num velório. Até hoje isso é uma piada na sua família. Mas seria piada em qualquer família. Quem começa a namorar num velório? Acontece que eu não podia mais resistir às suas investidas. Senti que Deus estava me dando uma oportunidade de colocar na minha vida uma pessoa especial e oportunidade a gente não pode deixar passar.
Além disso, naquele momento eu estava di…

O olhar do menino

Levi e Joel debatiam arduamente sobre questões complexas de sua religião no Templo de Jerusalém. Era páscoa e a cidade estava cheia de gente pra todo lado como toda cidade em dia de festa. Porém os dois velhos sábios logo se deram conta de que sua conversa era atentamente acompanhada pelos olhos arregalados de um menino.
Na tentativa de ironizar o garoto, Levi perguntou-lhe com um sorriso sarcástico: - O que você acha?
Para a surpresa dos dois velhos, o garoto respondeu: - Nossa Lei diz para amar os amigos e odiar os inimigos, porém Deus faz nascer o sol sobre justos e injustos e faz a chuva cair sobre justos e injustos. Portanto eu digo que devemos amar os nossos inimigos para que sejamos verdadeiramente conforme a imagem e semelhança de Deus.
Joel e Levi se entreolharam abismados pela coerência na resposta daquele simples menino. E não somente pela resposta, mas pela audácia em questionar a Lei de Moisés. Na tentativa de instruí-lo, Joel o questionava. O menino, contudo, seguia responden…

Luiz e os loucos

Era uma vez um mundo de loucos. Cada habitante tinha uma síndrome diferente, um tipo de TOC, uma paranoia. Mas uma doidice era a mais comum de todas: A maioria dos moradores desse mundo era um acumulador compulsivo. Em cada casa havia uma média de dezoito gatos, quatorze cachorros e tantos objetos que mal se podia circular dentro delas. Também era difícil circular pela rua. Acontece que ninguém jogava o lixo fora de modo que em cada quintal havia um aterro particular de onde catadores eram enxotados à vassouradas. Nem os ratos entendiam o que se passava.
Todavia, nesse mundo, existia uma pessoa normal. Uma pessoa sadia que não possuía nenhuma mania sequer. Andava e falava normalmente, sem fazer caretas ou gritar. Seu nome era Luiz. Ele não era agressivo ou catatônico. Não delirava e nem acumulava coisas. Tinha o suficiente para viver e estava satisfeito. Além disso, era gentil com os demais, ajudando-os em suas dificuldades.
Apesar disso, Luiz não era bem visto. Em sua ausência, todos c…